domingo, 12 de julho de 2015

                                             A crianças que ninguém queria -  parte II


 Tenho que continuar!!!...é um assunto bem delicado, e  como disse  mexerá com as emoções de muitas pessoas  envolvidas.Mas devo a estas crianças um pouco de reconhecimento por sua dura trajetória.Lidar com a rejeição é doloroso,e é um processo que pode trazer profundas cicatrizes.
As crianças estavam agora apenas começando a saga de suas vidas,nem sonhavam com isso,nem nunca desejaram!!. A vida lhes traria longos dias e pesadas lembranças...
O pai desesperado foi ao encontro da cunhada,ela era quase uma irmã para ele,e o mesmo sabia que era com quem se podia contar numa hora como esta.
Foi feita uma breve reunião,e o assunto em pauta era: 4 crianças abandonadas! O que fazer? Como fazer?? a quem recorrer? Todas as possibilidades foram procuradas e logo descartadas,a cunhada trabalhava fora ...
...logo constatou-se que ela também não podia assumir as crianças!
Conversa vai,conversa vem,lembraram que existia na cidade um grande orfanato,onde abrigavam crianças órfãs de pai ou de mãe. Discutiram a possibilidade de colocar as crianças lá.
Quem sabe se por alguns meses,talvez um ano,até que o pai pudesse recuperar-se do susto,refazer a vida e ir buscar as crianças!   Mas pera,estas NÃO eram órfãs!!nem de pai,nem de mãe!!
Logo não se enquadrariam as exigências da casa acolhedora.Voltaram as indagações:o que fazer?? como fazer?? onde fazer?? com quem deixar?
Bem ;estes pequenos detalhes eu realmente desconheço,mas recorri a irmã mais velha, e a do meio, que me forneceram alguns detalhes...
Ele,(o pai), forjará um atestado de óbito,para assim as crianças parecem órfãos de mãe,e serem aceitas no lar. E assim foi feito!!! O pai juntou as poucas roupas que as crianças tinham, entrou no ônibus e rumou para o lugar que parecia ser um lar temporário, e perfeito para seus filhos.
Sem explicações,sem consulta sobre se isso agradava as crianças,apenas com a ideia fixa de resolver logo o maior pesadelo de sua vida! E assim ele deixou no lar seus 4 filhos,com lágrimas nos olhos e com a promessa que iria visita-las sempre e logo voltaria para busca-las.O lar acolheu as "órfãs" e encaminhou o menino para a casa do pequeno jornaleiro,um local destinado somente para meninos órfãos.
Tudo parecia perfeito,o problema temporariamente resolvido e as crianças bem cuidadas.
As crianças sentiram se acolhidas e bem,pois ali tinham outras meninas com quem brincar e o pão a mesa,pelo menos 3 vezes ao dia. Não tinham aos pais,mas esperavam todos os dias de visita pelos mesmos. Estas visitas aconteciam aos domingos,quando as crianças eram arrumadas para receber seus visitantes. O pai veio uma ou duas vezes,e quando o fez foi embora aos soluços,por deixar as filhas mais uma vez ali...semi abandonadas!! Para ele foi muito doloroso também!
Tinha um tio que vinha mais vezes,e ele trazia balas de vidro,daquelas coloridas e que pintavam a boca.Ele contava historias de princesas e dragões,e brincava muito com as crianças,mas ao final das visitas,era mais um que se ia com lágrimas nos olhos.
A irmã do meio tinha uma curiosa maneira de saber se a mãe vinha,pensava ela que os pássaros lhe contavam. Até ali as crianças não estavam entendendo que o abandono seria para a vida toda...que nunca mais seriam uma família,não com essa mãe,não na mesma casa,nem com os irmãos. Se quisessem fazer parte de uma família novamente,teriam que ter a sua própria..mas disso as crianças ainda não sabiam,não entendiam.E seguiam com suas fantasias da família unida novamente.
Então a irmã do meio olhava para o alto e perguntava aos pássaros assim;
Passarinho nossa mãe vem hoje?? E o passarinho batia asas e cantava,então para ela era uma resposta de que a mãe viria!! Logo ela contava para as irmãs ,que se enchiam de alegria e iam esperar a mãe na grande porta,que dava para a rua ,com vista para a parada de ônibus. Ali as 3 passavam a tarde esperando e vibrando a cada ônibus que surgia na esquina. Mas murchando a cada ônibus que partia,sem a mãe ter descido dele. Assim eram seus domingos,assim seguiu se uma rotina,mês,apos mês!! E a mãe nunca veio!!!!!!!!!!!!!
O pai,como relatei veio umas duas vezes,e talvez por não suportar a dor de ver as filhas ali,resolveu não vir mais. O tio tinha um cargo na igreja de sua comunidade, e não podia estar ausente desta todos os domingos,logo também não vinha tanto.
As outras crianças por sua vez tinham sempre visitas,muitas e constantes!
 Para aquelas que eram órfãs mesmo, e quase sem visitas,restava lhes o consolo de receber uma cocada,isso mesmo,uma cocada!
como as que recebiam visitas ganhavam doces,frutas,chocolates  e outras guloseimas,as que não tinham ninguém, recebiam um premio de consolação digamos assim,para não se sentirem tão só e tão lesadas. A irmã mais velha por saber que durante a semana nada teriam para comer,pegava as primeiras cocadas e logo guardava.Limpava a boca da pequena que já vinha abocanhando a cocada e mandava as irmãs para o final da fila de novo,para buscar mais uma,e mais uma.
Isso para que durante a semana estas fossem divididas,pedacinho por pedacinho,enquanto as  outras crianças devoravam suas coloridas e deliciosas guloseimas.Era nada menos que uma estratégia de terem algo para mordiscar,enquanto as outras saboreavam seus doces incríveis.
E assim foi se  passando o tempo,os domingos de longa espera,as visitas que nunca vieram, a maldita sirene que tocava avisando que o tempo acabou.As vezes mais parecia com um campo de concentração,pois após a sirene tocar, todas tinham que se recolher em seus dormitórios e esperar até a  hora de dormir.
Muitas meninas então iam saborear seus doces e suas  maças...ahhh as maças!!
Que aroma delicioso...as maças!! Sobre elas falarei na próxima vez!!
Até breve!

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